domingo, 26 de fevereiro de 2017

o cinzento do dia

Omar Ortiz

o cinzento do dia
é névoa que me conduz
a colorir
com labaredas de fogo
as memórias que circulam
em mim, e que eu apenas
quero atear cores.

Autor : BeatriceM

sábado, 25 de fevereiro de 2017

Do amor


Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares

.
Autor:Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Dos teus dedos

Natália Drepina

Do vento conheço o sopro
por vezes a velocidade

dos teus dedos só conheço
a medida calma dos poros

Autor : Joaquim Alves

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

...

Leah Johnston

Tu acendes a chama
do meu corpo
pões a lenha ao fundo
em sítio seco
.
Procuras no desejo
o ponto certo
e convocas aí
o lume certo
.
Se a madeira demora
a ganhar fogo
tomas-me as pernas
e deitas lento o vinho
.
Riscas os fósforos todos
e depois
é mais um incêndio
que adivinho

Autor : Maria Teresa Horta
in Só de Amor(Quetzal,1999)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Por vezes

Mikael Aldo

por vezes...
fazemos coisas "tão loucas"
como respirar o Sol
abraçar a lua
sorrir à vida...
e esquecemo-nos
do amanhã...

Autor : José Luís Outono
in Mar de Sentidos (ed.Vieira da Silva 2012)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Dois Rios


Kylli Sparre

O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.

Autor : Luís Miguel Nava
in O CÉU SOB AS ENTRANHAS (Limiar, 1989)



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

3


Esperar por ti agora quando já todos me explicaram
Como está completamente gasto o tempo de esperas
Com telefonemas fora de hora recados fortuitos e
Sinais desajustados
Pode parecer daquelas coisas que fazíamos
Quando há muitos anos as pessoas
Olhavam para nós e repetiam meu deus
Onde é que o mundo vai parar
(havia uma velha no jardim da parada
Que dizia isto todas as manhãs mal nos via chegar
E tu murmuravas havemos
De convidá-la para o nosso casamento
E ríamos muitos e tínhamos a certeza
De que viver era isso)

Não importa hoje temos
Outras maneiras de fugir e de resto
Já morreram todos os que então
Furiosamente nos vigiavam
Embora possa ainda
Haver quem nos reconheço e se espante
E invente presságios e vozes de oráculos
Ou muito simplesmente destinos banais
Adivinhados nas folhas de chá
E em surdina nos avise
Que as rugas lavradas pelo tempo tornaram
Demasiado inóspito o lugar
Onde nos encontramos

Mas eu já percorri muitos lugares em chamas
E esperar por ti agora é apenas
Mais um longo corredor de memórias regressadas
Que se atravessa entre os nossos corpos
Pelo meio de retratos desfocados com o Sena ao fundo
E discos de vinil com velhas canções
Que nunca partilhámos com mais ninguém

- até chegar ao lugar do amor subitamente desocupado
Pronunciando devagar cada sílaba do nome com que de mim nascias

Autor : Alice Vieira
in DOIS CORPOS TOMBANDO NA ÁGUA pag 21/22
 (Caminho, 2007)

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Da Música

Anka Zhuravleva

A musica derrama-se
no corpo terroso
da palavra. Inclina-se
no mundo em mutação
do poema.
A música traz na bagagem
a memória do sangue; o caminho
do sol: Lume e cume
de palavras polidas.
A música rompe um rio de lava
por si mesmo criado. Lágrima
endurecida
onde cabem o mar
e a morte.

Autor : Casimiro de Brito
in Canto Adolescente (Poesia 61.Faro.1ªed)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Habitas-me

Anka Zhuravleva

Habitas-me
como a uma casa
de um só quarto
no alto de uma falésia;
Como a ventania
irrompe na floresta, cavando clareiras
ou devagar vai esculpindo luas
nas areias.

Autor : Lília Tavares
in Rio de doze Àguas (Coisas de Ler.2012)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Manifesto

Kris Lewis

Busco a poesia no âmago da vida
ou nas esquinas
ou nas curvas e contracurvas.
Em todo o lado há luz
ou sombras. E tudo
é poesia.
Não tenho escolas,
nem gurus.
A linha da poesia é a linha
da vida.

Autor : João Melo
in Auto-retrato

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

....

Steve Hanks

Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade

mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo quem parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda

Autor : Alice Vieira
in O que Dói às Aves, Editorial Caminho, 2009