quarta-feira, 30 de março de 2016

Dá-me um lugar


Alyssa Monks

dá-me um lugar onde possa reclinar a cabeça
um colo onde possa adormecer
e te saiba por perto

dá-me mãos inteiras de chuva
os lírios que a manhã me trouxe aos olhos
uma única razão para o dilúvio

e eu dar-te-ei um verso
do tamanho de uma casa

Autor : José Rui Teixeira

terça-feira, 29 de março de 2016

Retido


Alyssa Monks




ela o havia perdido.
assim,
sem aviso prévio,
sem motivo certo,
sem o ter conhecido.

a notícia seca
a lhe engasgar o peito.

o choro contido,
o único meio de se fazer ininterrupto.

a vida jamais voltaria à de antes.

teria sempre
o sorriso imperfeito,
o abraço doído
e a alma triste.

e a maioria lhe dizia em tom de chiste
que logo, logo lhe viria outra espera.

o maior absurdo acerca do aborto
é que poucos o veem como filho morto.

o luto foi seu e de mais ninguém.

Autor Renata de Aragão Lopes
http://docedelira.blogspot.pt/

domingo, 27 de março de 2016

Os teus lábios

Oleg Oprisco

Os teus lábios
são o porto onde os meus
ancoram, e o beijo se solta.

Nos dias nossos
nada nos é interdito
nem o cais nem o horizonte.

Autor:BeatriceMar

sexta-feira, 25 de março de 2016

entre a saliva

Mira Nedyalkova

entre a saliva e os sonhos há sempre
uma ferida de que não conseguimos
regressar

e uma noite a vida
começa a doer muito
e os espelhos donde as almas partiram
agarram-nos pelos ombros e murmuram
como são terríveis os olhos do amor
quando acordam vazios

Autor : Alice Vieira

quinta-feira, 24 de março de 2016

Quantas horas perdi

michael bilotta
“Quantas horas perdi
foi por ti
que as perdi.”
Vai o meu coração
repetiu a lição:
“Quantas horas perdi
foi por ti que as ganhei…”


Autor: Sebastião da Gama

quarta-feira, 23 de março de 2016

Infância

Tushar Khandelwal

O vinho empurrava-os para a noite, para o
norte,
para a alquimia dos frutos ardidos.
E tu vinhas só, entre eles.
Soltando as labaredas pela aldeia dentro,
pela casa dentro.
Aldeias com abismos, com a ribeira ao fundo.


Em sobressalto,
ouvia os teus gritos.
Os cães ladravam muito alto e o
relâmpago sobre as rochas fulminava os
espelhos da noite.
Não dormia, não falava,
dobrado sobre mim mesmo como um feto,
como uma giesta quebrada pelo vento.
Podia ser dezembro
já que a geada e as laranjas se agarravam
à árvore.

Autor : JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
In Agora e na Hora da Nossa Morte

terça-feira, 22 de março de 2016

Dois rios



O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.


Autor :  Luis Miguel Nava

segunda-feira, 21 de março de 2016

Quando voltares

Kasia De Rwins

Quando voltares
toma a minha mão.
Tenho saudades
de mim em ti.

Tenho muitas saudades
de morar dentro dos livros
e de fazer amor contigo
em todas as páginas.


Autor : Joaquim Pessoa

sábado, 19 de março de 2016

Foi um beijo

Anna Razumovskaya

foi um beijo onde não importava a boca
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinqüente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca


Autor : Martha Medeiros

sexta-feira, 18 de março de 2016

O abismo

Kolja Tatic

Com a sua pele de poço,
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.

Autor : Luis Miguel Nava

quinta-feira, 17 de março de 2016

Poema

Josep Moncada

Alguma coisa onde tu parada
fosses depois das lágrimas uma ilha,
e eu chegasse para dizer-te adeus
de repente na curva duma estrada

alguma coisa onde a tua mão
escrevesse cartas para chover
e eu partisse a fumar
e o fumo fosse para se ler

alguma coisa onde tu ao norte
beijasses nos olhos os navios
e eu rasgasse o teu retrato
para vê-lo passar na direcção dos rios

alguma coisa onde tu corresses
numa rua com portas para o mar
e eu morresse
para ouvir-te sonhar


Autor : António José Forte

quarta-feira, 16 de março de 2016

Vai

danielle kwaaitaal

Vai-me o pensamento
voa longe
vive a flutuar

Navega
carrega
sossega
essa minha saudade de amar !


 Autor : Fernanda dos Santos

terça-feira, 15 de março de 2016

Estamos Atados Filho

TJ Scott

Levar-vos-ei sempre comigo. Olho de frente o último raio de sol antes de o sol desaparecer. Penso: um homem é um dia, um homem é o sol durante um dia. E é preciso continuar. Avançam os meus pés sobre a terra. Filho, dormes ainda, e quis mostrar-te o sol-pôr. Quis mostrar-te a terra, ensinar-te a cor da terra por dentro, porque quem conhece a cor da terra por dentro conhece o mundo e os homens. Filho, o sol desapareceu agora e deixou uma aura vermelha de sangue à volta do cabeço onde entrou, e quis ensinar-te que amanhã estará calor. Quis ensinar-te que, se não vires as estrelas de noite, espera chuva no dia seguinte. E saberes isto é saberes tudo. São estas as poucas coisas que nos dão a saber. O resto, filho, são mistérios sem explicação. O resto são punhais apontados dentro do nevoeiro. O resto são punhais que vemos aproximarem-se do nosso peito, e estamos atados, filho. 

Autor : José Luís Peixoto
in 'Nenhum Olhar'

segunda-feira, 14 de março de 2016

O que me faz escrever este poema

Lis Costa

O que me faz escrever este poema
não são as coisas: terra céu astros.
A saber: estendo a mão: e
o mundo reconhece-a encontra a

memória onde repousa e se transforma.
Pequena questão de valor cósmico. Insisto:
elo que liga bruma e fumo
felicidade de imagens nome inamistoso.

Não sonho palavra sonho barco.
Imóvel aprendo a não esquecer:
aspecto mineral do corpo
um destino de mica qualquer coisa
que não cessa de bater.

Autor : João Miguel Fernandes Jorge
in "Vinte e Nove Poemas"

sábado, 12 de março de 2016

decorrer

Johan Messely

imagino-te e existes junto ao impossível perto.
sou os gestos possíveis e temo descrever-me
rente à noite, de caule azul vergado pelo frio,
a esperança, que é sempre uma espécie de fé.

as perguntas desenham uma ideia de sonho.
esquece as surpresas da gravidade do inverno
e do inverno da gravidade, frutos da solidão.
não somos divindades. não és musa e eu sou

ninguém, que te inventa mulher, que te quer
mulher, sem todos esses conceitos sem nexo.
a paridade é a nossa permanência para além

do poema, ou dos infortúnios virtuais do sexo,
ou de uma outra vida que nos poderia separar
os mélicos indícios de te pronunciar lentamente.

Autor : Henrique Caldeira dos Santos
http://aurorar.blogspot.pt/

sexta-feira, 11 de março de 2016

Curvam-se os dias


Saul Landell

Curvam-se os dias. E no declive
A íntima inquietude de meus passos...

Amável embora a sombra espraia-se
Em azul neutro. Névoa desprendida
A derramar prenúncios. Quase tímida.
Dulcificando a erosão da cor e abrindo-se
Vagabunda ao seu destino espúrio...

Sem alardes. Que nada pode a subtileza do voo
Nem a coada luz da nuvem...

Apenas a rota das trevas e a imanência do sopro
A moldar a curva e a frágil senda
E os calcinados sonhos
Do poeta...

Autor : Manuel Veiga

quinta-feira, 10 de março de 2016

Sei que o silêncio morde a minha boca

Richard Blunt

Sei que o silêncio morde a minha boca.
Hoje, na melancolia de um fim de tarde,
Chamei por uma estrela solitária.
Essa que morreu antes de chamar pelo teu nome.
Sei hoje que a tua ausência
É a voz do silêncio do meu corpo,
O tempo que faltou ao nosso encontro,
Se pudesse ser outro que não eu
Talvez me pudesse despir de antigas mortes
E olhar-te na madrugada súbita dos teus olhos
E dizer-te que amanhã
É sempre o dia em que te procuro.
Amanhã, será sempre o dia em que te digo
“Amo-te”.

Autor : Paulo Eduardo Campos
In: Na serenidade dos rios que enloquecem

quarta-feira, 9 de março de 2016

Ao meu cão


Deixei-te só, à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humanismos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo... e apesar disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.
    
Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.
E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado.

Autor : Cristovam Pavia
      

terça-feira, 8 de março de 2016

A Mulher

Mira Nedyalkova
Se é clara a luz desta vermelha margem
é porque dela se ergue uma figura nua
e o silêncio é recente e todavia antigo
enquanto se penteia na sombra da folhagem.
Que longe é ver tão perto o centro da frescura

e as linhas calmas e as brisas sossegadas!
O que ela pensa é só vagar, um ser só espaço
que no umbigo principia e fulge em transparência.
Numa deriva imóvel, o seu hálito é o tempo
que em espiral circula ao ritmo da origem.

Ela é a amante que concebe o ser no seu ouvido, na corola
do vento. Osmose branca, embriaguez vertiginosa.
O seu sorriso é a distância fluida, a subtileza do ar.
Quase dorme no suave clamor e se dissipa
e nasce do esquecimento como um sopro indivisível.

Autor : António Ramos Rosa
in "Volante Verde"

segunda-feira, 7 de março de 2016

Quero-te de Branco, Meu Amor

Vladimir Muhin
Quero-te de branco,
ou antes, modelada
nas roupas que cosesses
das bonecas, nos saltos,
nos baloiços, nos degraus
de uma porta qualquer donde saísses.
Quero-te de branco e intocada,
carregada porém dos anos buliçosos
e das vidas ausentes.
De branco, meu amor,
e de tão branco
que me desses o mundo em luz de sol.

Autor : Pedro Tamen
in“Rua de Nenhures”

sábado, 5 de março de 2016

dá-me um livro

Mira Nedyalkova

dá-me um livro de páginas por descobrir, mesmo que nelas meus dedos já tenham passeado.

dá-me um livro onde as noites se escrevam como rios fluindo por entre florestas de metáforas.

dá-me um livro onde as línguas se misturem sem nação, ou boca, códigos enfeitiçados na suspensão de lábios alvoraçados.

dá-me um livro para nele eu entrar. pode ser prosa, pode ser poesia, pode ser o teu corpo.

Autor : © João Costa . 29.fevereiro.2016

sexta-feira, 4 de março de 2016

Margem

Jorge Botero Lujan 

Nesta margem secreta onde o teu nome
Docemente me corre pelas veias
E letra a letra acorda em mim a fome
De horizontes perdidos nas ideias

Neste lugar de inquietação e calma
Onde todos os sonhos são possíveis
Onde a palavra é um corpo e o corpo é alma
E os nossos rostos sombras invisíveis

Neste deserto onde és tudo e és nada
Vejo-nos abraçados meu amor
E alcanço o céu e o chão da madrugada
Para te dar uma estrela ou uma flor

Autor:Mário Domingos,
in, O DESPERTAR DOS VERBOS

quinta-feira, 3 de março de 2016

Sem pecado



Johan Messely

Pequei…
Num momento
Em que perdi o teu olhar
E esqueci-me
Do mar suave
Beijo… sempre.
Pequei…
Sem pecado
Na dor de sentir
Como vela aroma
Que escureceu
No mirrar do caminho.
Pequei…
No cair de um abraço
No rasgar de um dizer
No escrever sem fim
No trovão da quebra
Pequei… apenas… sem pecado!

autor : José Luís Outono
in, MAR DE SENTIDOS 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Preâmbulo

Galopam cavalos
por dentro do sangue

Em dunas resvalam
a boca e as mãos

Crispam-se as pálpebras
Os dedos se inflamam

ao mais leve toque
na tua garganta

assim que de costas
te deito na cama

Autor : David Mourão-Ferreira