sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

.E escrevi o teu nome


E escrevi o teu nome e o teu número de telefone numa página da agenda do mês de Fevereiro. E, ao escrevê-lo, sabia que era uma despedida, mas todo o mês de Março nos arrastamos na despedida, como caranguejos na maré vazia. Sem ti, lancei outras raízes, construí pátios e terraços, fontes cujo som deveria apagar todos os silêncios, plantei um pomar com cheiro a damasco, mandei fazer um banco de cal à roda de uma árvore para olhar as estrelas do céu, um caminho no meio do olival por onde o luar pousaria à noite, abobadas de tijolo imaginadas pelo mais sábio dos arquitetos e até teias de aranha suspensas no teto, como se vigiassem a passagem do tempo. Nada disso tu viste, nada te contei, nada é teu. Sozinhos, eu e a aranha pendurada na sua teia, contemplamos-nos longamente, como quem se descobre, como quem se recolhe, como quem se esconde. Foi assim que vi desfilar os anos, as paredes escurecendo, um pó de tijolo pousando entre as páginas dos mesmos livros que fui lendo, repetidamente. Heathcliff e Catarina Linton destroçados outra vez pela minúcia do tempo.
Como explicar-te como tudo isto se te tornou alheio, como tudo te pareceria agora estranho, como nada do que foi teu vigia o teu hipotético regresso? Ulisses não voltará a Ítaca e Penélope alguma desfará de noite a teia que te teceste.
E arranquei a página da agenda com o teu nome e o teu número de telefone. Veio a seguir Abril e depois o Verão. Vi nascer a flor da tremocilha e das buganvílias adormecidas, vi rebentar o azul dos jacarandás em Junho, vi noites de lua cheia em que todos os animais noturnos se chamavam rãs, corujas e grilos, e um espesso calor sobre a devassidão da cidade. E já nada disto, juro, era teu.
E foi assim que descobri que todas as coisas continuam para sempre, como um rio que corre ininterruptamente para o mar, por mais que façam para o deter.
Sabes, quem não acredita em Deus, acredita nestas coisas, que tem como evidentes. Acredita na eternidade das pedras e não na dos sentimentos; acredita na integridade da água, do vento, das estrelas. Eu acredito na continuidade das coisas que amamos, acredito que para sempre ouviremos o som da água no rio onde tantas vezes mergulhamos a cara, para sempre passaremos pela sombra da árvore onde tantas vezes paramos, para sempre seremos a brisa que entra e passeia pela casa, para sempre deslizaremos através do silêncio das noites quietas em que tantas vezes olhamos o céu e interrogamos o seu sentido. Nisto eu acredito: na veemência destas coisas sem princípio nem fim, na verdade dos sentimentos nunca traídos.
E a tua voz ouço-a agora, vinda de longe, como o som do mar imaginado dentro de um búzio. Vejo-te através da espuma quebrada na areia das praias, num mar de Setembro, com cheiro a algas e a iodo. E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas ilusões de que tudo podia ser meu para sempre.

Autor : Miguel Sousa Tavares
Conto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crocket” 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Voos inesperados




Paco de Lucía, 
 nome artístico de Francisco Sánchez Gómez
Algericas,21 de Dezembro de 1947

Cancún,26 de Fevereiro de 2014

Já a luz se apagou do chão do mundo





Já a luz se apagou do chão do mundo,

deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.

Autor : António Franco Alexandre,

             in «Duende»

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Canção do Leste

Rosemary Blanche


Na volta da esquina
um anjo invisível espera;
uma vaga névoa, um espectro pálido
dir-te-á algumas palavras do passado.

Como água de acéquia o tempo
cava em ti o seu manso trabalho
de dias e semanas,
de anos sem nome nem recordação.

Na volta da esquina 
seguir-te-á esperando em vão 
esse que não foste, esse que morreu 
de tanto ser tu próprio o que és. 
Nem a mais leve suspeita, 
nem a mais leve sombra 
te indica o que poderia ter sido 
esse encontro. E, no entanto, 
estava ali a chave 
da tua ventura breve sobre a terra. 



Autor : Álvaro Mutis,
in «Os Versos do Navegante - antologia poética»
(tradução de Nuno Júdice)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

..

Barry Ross Smith

Creio que existes 
Mas não te vejo. 
Outrora estiveste aqui, 
Agora existo só. 
Deixo cair uma lágrima 
Do sentimento ferido, 
Onde nubla o ateado sofrimento 
De não te ver. 
E o coração bate no profundo vazio 
Do nada.
.
Autor Wolf

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Nunca Envelhecerás

Ludmila Yilmaz


A tua cabeleira 
é já grisalha ou mesmo branca? 
Para mim é toda loira 
e circundada de estrelas. 
Sobre ela 
o tempo não poisou
o inverno dos anos
que se escoam maldosos
insinuando rugas, fios brancos... 

Ao teu corpo colou-se 
o vestido de seda, 
como segunda pele; 
entre os seios pequenos 
viceja perene 
um raminho de cravos... 

Pétalas esguias 
emolduram-te os dedos... 
E revoadas de aves 
traçam ao teu redor 
volutas de primavera. 

Nunca envelhecerás na minha lembrança!... 


Autor : Saúl Dias, in "Sangue"

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Com a tua letra



Porque eu amo-te, quer dizer, estou atento
às coisas regulares e irregulares do mundo.
Ou também: eu envio o amor
sob a forma de muitos olhos e ouvidos
a explorar, a conhecer o mundo.

Porque eu amo-te, isto é, eu dou cabo
da escuridão do mundo.
Porque tudo se escreve com a tua letra.

Autor : Fernando Assis Pacheco, «A Musa Irregular»

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

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Steve Hanks
.
A terra leva-nos por terra;
mas tu, mar,
levas-nos pelo céu.
.
Autor : Juan Ramón Jiménez

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Luz



Talvez que noutro mundo, noutro livro,
tu não tenhas morrido
e talvez nesse livro não escrito
nem tu nem eu tenhamos existido

e tenham sido outros dois aqueles
que a morte separou e um deles
escreva agora isto como se
acordasse de um sonho que

um outro sonhasse (talvez eu),
e talvez então tu, eu, esta impressão
de estranhidão, de que tudo perdeu
de súbito existência e dimensão,

e peso, e se ausentou,
seja um sonho suspenso que sonhou
alguém que despertou e paira agora
como uma luz algures do lado de fora.

Autor : Manuel António Pina, in «Todas as Palavras - Poesia Reunida»

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

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Queima o sangue um fogo de desejo,
De desejo a alma é ferida,
Dá-me os teus lábios: o teu beijo
É o meu vinho e minha mirra.
Reclina para mim a cabeça
Ternamente, faz que eu durma
Sereno até que sopre um dia alegre
E se dissipe a névoa nocturna.

Autor : Aleksandr Púchkin

in «O Cavaleiro de Bronze e Outros Poemas»