domingo, 19 de fevereiro de 2012

Estavas sentado e havia uma paisagem agreste





Estavas sentado e havia uma paisagem agreste
nos teus olhos: as nuvens a prometerem chuva,
os espinheiros agitados com a erosão das dunas,
um mar picado, capaz de todos os naufrágios.

O teu silêncio fez estremecer subitamente a casa -
era a força do vento contra o corpo do navio; uma
miragem fatal da tempestade; e o medo da tragédia;
a ameaça surda de um trovão que resgatasse a ira
dos deuses com o mundo. quando te levantaste,

disseste qualquer coisa muito breve que me feriu
de morte como a lâmina de um punhal acabado
de comprar. (Se trovejasse, podia ser um raio
a fracturar a falésia no espelho dos meus olhos.)

Hoje, porém, já não sei que palavras foram essas -
de um temporal assim recordam-se sobretudo os despojos
que as ondas espalham de madrugada pelas praias.

Autor : Maria do Rosário Pedreira

domingo, 5 de fevereiro de 2012

...


ladro à lua faminto de teu corpo
nas infinitas noites
em que não vens apesar do grito!..

tomo-te em meu corpo febril
como adolescência do desejo
em solidão desesperada!...

colho-te pura flor da madrugada
entre orvalhos e lascívia sibilada
em que te deito sem te ter!...

sorvo-te no altar da tuas coxas
persigo a meta como caça em língua
resoluta em febre de greta  molhada...

sublimo-te na explosão do meu sexo
como gota na sofreguidão do beijo
como se tu viesses toda inteira...


Autor:Senador
Foto: Jerzy Sowa, Jr.