domingo, 31 de outubro de 2010

Cansada de ser mulher

Estou cansada de ser mulher
Esgotada de ser aquela que os homens procuram
Para viver momentos de prazer
Estou cansada de ser carne e gozo
Fatigada de ser um ser vazio e sem alma
De ser fonte de desejo e de não beijar
Estou farta de mandar embora da minha vida
Quem nunca deixei verdadeiramente entrar
Estou sem sangue frio nas veias
Para implacavelmente continuar a ser mulher

.
Autor : Madalena Palma

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Comovem-me



Comovem-me ainda os dias que se levantam
no deserto das nossas vidas.

Dos belos palácios da saudade
não resta a impressão dos dedos nas colunas
fendidas, e nada cresce nos pátios.

Muito além, depois das casas, o último
marinheiro continua sentado.
Os seus cabelos são brancos, pouco a pouco.

Aqui, tudo se resume a algumas tâmaras que
secaram ao sol,
longe do orvalho,
das fontes que pareciam nascer de um olhar
turvo sobre a sede da terra.

Comovem-me ainda as palavras que dizias
aos meus ouvidos aprisionados pela música.
Comovem-me as cadeiras vazias, no pátio.

Lembro-me sempre de ti.

Autor :José Agostinho Baptista
Esta voz é quase o ventoAssírio & Alvim, 2004
Foto:
alessandraa

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

poesia do meu corpo


Retiro do teu corpo
o meu corpo
gasto de tanto amar.
O meu corpo cego
e desarrumado
de que junto os pedaços
espalhados em ti.
Corpo em reconstrução
deitado à sombra do teu olhar.
.
Autor : António Barroso Cruz
Foto: alrune

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Antes de um lugar há o seu nome


Antes de um lugar há o seu nome. É ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável.

Lembro-me


do quadriculado verde das colinas,
do sol entretido pelos telhado ao longe,
dos rebanhos empurrados nos carreiros,
de um cão pequeno que se atreveu à estrada.


Íamos ou vínhamos?


Autor :Maria do Rosário Pedreira A Casa e o Cheiro dos Livros2ª. Ed. Lisboa: Gótica, 2007.
Foto: LeszeK

domingo, 17 de outubro de 2010

fez-se um chão enorme no silêncio do corpo

fez-se um chão enorme no silêncio do corpo
um chão fundo de flores e campas
seco
pequenos espaços em ruína
se de repente...um sorriso
nos lábios nasce uma palavra fresca
a pureza no dia em que se morre.

Conta-me as palavras que me dizias
antes de nos conhecermos
conta-me o que dizias
quando as palavras eram mudas
encosta a cabeça na minha mão
e conta-me.

Foto: Żaba

domingo, 10 de outubro de 2010

O poema não vem



O poema não vem quando se chama
Desobediência é sua inclinação
ou seu jeito de ouvir é uma brandura
que só percebe falar de coração

Aguardarei que a pedra
lançada ao lago no anoitecer
regresse reluzente à minha mão
e se diga palavra ou vento ou amanhecer


Autor: Licínia Quitério http://sitiopoema.blogspot.com/
Foto: anikout

sábado, 9 de outubro de 2010

Solidão


Neste espaço que me consome,
Onde existo só,
Sonho que não sou eu,
Que não pertenço a lugar algum….

Sou alguém
Que não pertenço a ninguém!….

Não sei onde estou,
Perdi meus pensamentos,
Meus horizontes,
A luz do meu viver….

Olho para o céu,
Não há luz que me ilumine,
Que me guie no meu ser….

Há dentro de mim
Um ser frágil,
Que sofre com o tempo,
Receia que lhe toquem!…

Está ferido,
Não consigo sarar esta ferida,
Que não pára de sangrar,
Que se agonia, de tanto estar aqui,
Em subtil sofrimento….

Não aguento,
Não suporto mais este insuportável estar….

Estou farto,
Cansado de estar aqui,
Desta sombra que me assombra!….

Onde tudo é monotonia silenciosa
Que aos poucos me envolve,
Nesta minha melancólica existência….

Autor:Wolf

Foto:Paulo César http://www.paulocesar.eu





terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ainda às vezes



Avanço devagar, vão-se os amigos na ressaca
de cujo amor avanço assim deixando
ficar contudo aos poucos para trás, embora o mar
lhes sobre ainda às vezes do sorriso.


Procuro esses amigos. É possível
atar-lhes o horizonte entre o cabelo e acariciá-los
ainda uma vez mais. Fazer-lhes através
das mãos passar o sopro das pedreiras.


Autor : Luís Miguel Nava

domingo, 3 de outubro de 2010

Nao vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo


Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.
.
Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.
.
Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.
.

Autor : Joaquim Pessoa
Foto: adamkowalski

sábado, 2 de outubro de 2010

Desamor

Deito-me no centro das teias obscuras. Quebro os espelhos, os belos cristais onde
o meu perfil se descobre,
incólume às navalhas.
Vales tanto, vida,
como esta cicatriz impura, respirando
entre as cinzas,nesta cama de almofadas húmidas, com
as lágrimas caindo.

Autor:José Agostinho Baptista
Agora e na Hora da nossa Morte
Assírio & Alvim, 1998
Foto:Paulo César