domingo, 27 de junho de 2010

Nunca são as coisas mais simples que aparecem

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
.
Autor :Nuno Judice
Foto:Sitriel

sexta-feira, 25 de junho de 2010

onde



Onde quer que o encontres -
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de uma
árvore, na pele de um muro,
no ar que atavessa de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobe o meu corpo - é teu

para sempre, o meu nome.



Autora :Maria do Rosário Pedreira de Os Nomes de Familia em Nenhum Nome Depois, ed. Gótica Lisboa, 2004
Foto:
Komarek66

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Retrato do poeta quando jovem

José Saramago
16-11-1922
18-06-2o1o



Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.



Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.



Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.



Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.



Autor :José Saramago


(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Vem

Vem.
Vem comigo
Cansados de amor
mergulhemos juntos na noite
no silêncio dos amantes

amor amor amor
repete comigo
as palavras que nos dão paz.

Autor:Luis Rodrigues

terça-feira, 15 de junho de 2010

Beijar-te


Beijar-te será desvendar
O gosto puro nos teus olhos
Em berço largo de candura.
Será entrar no anel de fogo
Que inunda, sem o saberes,
A tua carne embriagada
Pela entrega com loucura.
Será reconhecer as aves intactas
Que voam inocentes
No sorriso delicado do teu rosto.
Será incendiar-te,
Afogar-te o peito erguido
Com as chamas dos meus braços.
Será rasgar a minha fronte
Para que a tua se alague
Da nudez divinal que te habita.
Será sussurrar-te palavras com rastilhos
Até que atices a pólvora
Da desordem do meu grito sobre o teu.
Beijar-te, será coabitar-te
Até que eu morra
A cada espasmo que te mate.


Autor Nilson Barcelli http://nimbypolis.blogspot.com/
Foto:Leszek

sábado, 12 de junho de 2010

Tentei desenhar os teus olhos de mar


Tentei desenhar os teus olhos de mar,
para poder um dia saber ensinar a menina das ondas a sonhar…
Não encontrei lápis nem pincel,
só a cor andava por perto a voar…
Difícil tarefa,
esta de ensinar a contar,
cada lágrima do mar,
quando cada uma tem em seu tamanho o Universo a chorar…
Nuvem, mar ou rio, é tudo o mesmo verso…
Amar é cousa séria, de saberes antigos, mistérios que não se ensinam, porque o sentir não é ter, mas dar.
Só te sei ensinar a voar, isso é cousa simples, não é preciso inventar, basta ir com o Ver, sentir a brisa a bater
e Ser…
Só te peço que não fiques, ficar estraga tudo,
até o sonhar.
Mesmo que fiques aí a olhar,
vai,
mesmo que seja pelo mar…

Autor:Almaro
2005-09-02
Foto:Goodnight

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sexta Poética 38

Maria Aurora Carvalho Homem

13/11/1939
11/06/2010


A palavra não chega a ser murmúrio
Mastigo-a na sombra a intervalos breves:
é um dizer silencioso
um tempo sem rosto
uma ausência presente em cada gesto.
A palavra viaja no meu corpo
prendo-a na franja dos olhos
corrompe a limpidez da distância
na precisão incolor dos dias.
É cardo, gume, alfazema e jasmim.
Persigo-a neste gesto de quem quer.
A palavra é este olhar de tudo cheio
este cheiro de noite
este acaso de nada
adágio sufocado em catedral vazia
vôo raso de pássaro vadio.
A palavra tem rosto de mulher
olhar de noiva eternamente virgem
é a pele que me veste cada dia
e que me despe à noite devagar.
Faço-a minha na ternura calada
de quem desfolha rosas no outono.
Caladas nos dizemos:
amantes confessados.

Autora: Maria Aurora Carvalho Homem

quinta-feira, 10 de junho de 2010

A nudez das palavras



Da boca brotam as palavras interdita
se
dentro de mim soltam-se as amarras
liberando tudo
o que eu tinha querido guardar
ficou somente
o desejo de querer compartilhar contigo
este fogo
que me transporta ao mais profundo de ti
e
em noites de transmutação
fico mudo quando a nudez das palavras
me conduzem
a este estranho sonho
de te ter tão longe e tão perto
.
Autor:Rogério Saviniano Telo
Foto:Stefers

terça-feira, 1 de junho de 2010

Traduzir-se



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
.
autor :Ferreira Gullar Prémio Camões 2010