quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A próposito das estrelas


Não sei se me interessei pelo rapaz
por ele se interessar por estrelas
se me interessei por estrelas por me interessar
pelo rapaz hoje quando penso no rapaz
penso em estrelas e quando penso em estrelas
penso no rapaz como me parece
que me vou ocupar com estrelas
até ao fim dos meus dias parece-me que
não vou deixar de me interessar pelo rapaz
até ao fim dos meus dias
nunca saberei se me interesso por estrelas
se me interesso por um rapaz que se interessa
por estrelas já não me lembro
se vi primeiro as estrelas
se vi primeiro o rapaz
se quando vi o rapaz vi as estrelas


Autora : Adilia Lopes
In Um jogo bastante perigoso em Obra, Lisboa, Mariposa Azual, 2000

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

As mazelas


Aos 77 anos, como é natural, aparecem-nos todas as mazelas.

Insignificâncias,uma dor aqui, uma dor ali, nas costas, na perna, na cabeça, uma pequena coisa na pele, na unha, no olho. Não ligo nenhuma. Porque a minha pior mazela é não acreditar que tenho 77 anos.

Eu bem me farto de dizer aos quatro ventos a minha idade para ver se interiorizo esse facto,mas, por dentro, estou na casa dos trinta, vá lá quarenta,e não passo daí.

Setenta e sete anos? Que loucura!Tenho sempre tanta coisa para fazer, para acabar, para ler, para escrever,tanto lugar para visitar. Tanto Museu para ver e depois as mazelas - aí!-,mas vou, porque tenho trinta anos e, evidentemente, tenho que ir.

Não tenho a noção de ser uma senhora velha. Digo "estava lá uma velhota",ou "imaginem que uma velha"...Estou a falar de pessoas provavelmente mais novas do que eu, mas não me enxergo.Até quando irá durar esta idade subjectiva que não me deixa envelhecer tranquilamente.

Só quando me oferecem o braço (já caí na rua e parti a perna, mas nem assim...),quando não me dirigem galanteios(que estranho!),acordo para a realidade,aí, é verdade, tenho 77 anos, que maçada...Ultimamente, tive (ou tenho, ainda não percebi)cancro de mama. Como acho que Deus não me ia mandar esta doença só para me chatear, abri uma campanha de sensibilização(televisão incluida), para que as mulheres façam mamografias.

Transformei a porcaria da doença numa coisa positiva.Passei os trâmites habituais operação, radioterapia, etc. tudo pacífico.Ainda por cima , o médico disse-me que era pouco provável que o cancro me matasse, porque, na minha idade, as células já não são o que eram...

Aí, sim?

Tenho 77 anos, que alegria!


Autora :Rosa Lobato Faria

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

não é sobre a solidão


não é sobre a solidão,
pouco me importa quem me
desviou palavra, é sobre
a tua ausência no lugar
íngreme da minha pele, por isso
cairei implume telhado abaixo
debulhada no coração



Autor:Valter Hugo Mãe

de o resto da minha alegria seguido de a remoção das almas Porto,
Cadernos do Campo Alegre 2003
Foto:Oem

domingo, 7 de fevereiro de 2010

entras de noite

Entras de noite, sem sombras, negra, escura de perfumes suaves,
a abraçar-me a ilusão com se colorisses a solidão do sonho
.
por vezes, à noite,
no silêncios dos pássaros
vejo-te
( em passos lentos)
e
oiço-te os olhos
( de alabastros-negro)
a cantarem,
saudade
em sussurros baços
e
beijo-te
como se fosses
verdade.

Autor: Almaro

Foto:Tilianne

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

e de novo

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

Autor:Rosa Lobato Faria

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

um dia

Um dia, ainda menino, falei com um anjo… estava pintado de ventos…não me disse palavras…só me deu caminhos…..
autor :Almaro