sexta-feira, 31 de julho de 2009

Espreitava em seus olhos uma lágrima

Espreitava em seus olhos uma lágrima,
e em meus lábios uma frase a perdoar;
falou o orgulho, o seu pranto secou,
senti nos lábios essa frase expirar.
Eu vou por um caminho, ela por outro;
mas, ao pensar no amor que nos prendeu,
digo ainda: porque me calei aquele dia?
E ela dirá: porque não chorei eu?

Autor:Gustavo Adolfo Bécquer
Foto:Filiipe

quarta-feira, 29 de julho de 2009

subimos


devagar uma brisa

nos teus cabelos nas minhas mãos

devagar uma brisa
na tua pele nas minhas mãos


subimos

paris é a sombra imensa
de nós.


Autor:José Luís Peixoto


segunda-feira, 27 de julho de 2009

O Mapa

Um dia perguntou-me:


Estudaste os teus mapas?


Conheces os caminhos?


Olhei-a desconfiada e,


cheia de medo de me perder,


desenhei-me em quadrado,

desfiz-me em quilómetros. .
. .

Autor :Filipa Leal
Foto:paralajak

domingo, 26 de julho de 2009

enquanto o sol

enquanto o sol me parte o
volume aos olhos, digo tudo
da voz que arremesso à boca, ventre
das melodias que arremesso ao
vento, e escuto, armadilha
que me armo para me
entender

Autor:valter hugo mãe
Foto:Marcin Atraszkiewicz

sábado, 25 de julho de 2009

escultor de sombras

voo, no silencio dos ventos,
e não me sinto pássaro,
mas escultor de sombras e de memórias, a respirar serenidades...
varro silêncios,
como quem acaricia o tempo que nos habita o passado.

Autor:Almaro
Foto: DDiArte

sexta-feira, 24 de julho de 2009

...


não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para
a morte. Não fales – tenho também ciúmes

da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais


Autor:Maria do Rosário Pedreira

Foto:Paulo Madeira

quinta-feira, 23 de julho de 2009



- O barulho do mar e do vento. A montanha, a ideia da montanha impraticável. E depois a terra arenosa por ali fora. E a solidão. E sentir sobretudo que já não pode haver medo. Fecho as portas da casa, a porta de saída e as portas dos quartos entre si. E fico no quarto sem soalho e deito-me no chão. Ouço o mar e o vento à frente e atrás da montanha solitária e poderosa. Depois encosto a cara à terra profundíssima para escutar o seu húmido sussurro atravessando-a toda e passando por mim. E então poderei morrer."


Autor:Herberto Helder
excerto de Os Passos em Volta
IFoto:Szara Reneta

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Nunca se sabe

Nunca se sabe o que é para sempre, sobretudo nas coisas do amor. E era uma coisa do amor, isto tudo. São tão estranhas as coisas do amor que não se compreendem por inteiro. Tem de se estar sempre a fazer suposições. Nunca se sabe como e até que ponto a até quando. Esta obsessão chega para impedir a vida, o amor pode impedir o amor, amaldiçoá-lo como um espectro.


Autor:Pedro Paixão (Nos teus braços morreríamos)
Foto:kiki 123

quarta-feira, 8 de julho de 2009

A noite

A noite veio de dentro, começou a surgir do interior
de cada um dos objectos e a envolvê-los no seu halo negro.
Não tardou que as trevas irradiassem das nossas próprias
entranhas, quase que assobiavam ao cruzar-nos os poros.
Seriam umas duas ou três da tarde e nós sentíamo-las
crescendo a toda a nossa volta. Qualquer que fosse a pers-
pectiva, as trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que,
apesar de a noite também se desprender das coisas, havia
nela algo de essencialmente humano, visceral. Como ins-
tantes exteriores que procurassem integrar-se na trama
do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da tarde,
num estertor, a emergir intermitentemente à superfície das
coisas. Foi nessa altura que a visão se começou a fazer
pelas raízes. As imagens eram sugadas a partir do que
dentro de cada objecto ainda não se indiferenciara da luz
e, após complicadíssimos processos, imprimiam-se nos
olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então a custo
a treva nasalada.

.

Autor:Luis Miguel Nava
in Vulcão I
Poesia Completa 1979-1994
Foto:Paralajka

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Formas


Há sempre uma madrugada
em que os candelabros de ouro enaltecem
as tuas formas,
a tua alquimia de pecado e volúpia,
há sempre,
no teu sorriso breve,
uma brisa que regressa do mar,
trazendo o lamento dos náufragos,
a sua sede irremediável.
Nestas horas de assassinada alegria
ergues os braços e uma súplica,
mas ninguém te ouve, ninguém te vê,
encerrada numa túnica de cores puras.


Autor:José Agostinho Baptista
Foto_ar-dj

domingo, 5 de julho de 2009

Escrevo-te a sentir tudo isto...


Escrevo-te a sentir tudo isto...
e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos
nos sais de prata da fotografia
poderia erguer-me como o castanheiro dos contos
sussurrados junto ao fogo e deambular trémulo com as aves
ou acompanhar a sulfurica borboleta revelando-se
na saliva dos lábios
poderia imitar aquele pastor
ou confundir-me com o sonho de cidade
que a pouco e pouco
morde a sua imobilidade.....
-
...habito neste país de água por engano
são-me necessárias imagens , radiografias de ossos
rostos desfocados
mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
repara.....
nada mais possuo
a não ser este recado que hoje segue manchado
de finos bagos de romã repara....
como o coração de papel amareleceu no esquecimento
de te amar.....


Autor :Al Berto
Foto;Aruan

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
.
Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.
.
Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre --
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.
.

Autor:Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
Foto:ciwak