domingo, 31 de agosto de 2008

tomou-me conta

poeta não sou eu, é o outro
que vive alojado em mim
durante tanto tempo o reprimi
agora revoltou-se libertou-se
sai quando quer e por onde lhe apetece
tomou-me conta
perdi-lhe a mão.

Já não lhe sou dono

Autor:antónio paiva
juntando as letras
Página 53
Edições Ecopy
Foto:KhAaMmlilia

sábado, 30 de agosto de 2008

Urgência


Levanta-te e deixa-me entrar,
diria se pudesse,
junto a esta cama onde a dor te contempla,
sob este tecto frio que não inventa qualquer paisagem,
qualquer lembrança de barcos ancorados no vazio da nossa alma, diria que lá fora escuto a sirene que se aproxima e a chuva que bate com as suas gotas de angústia na pedras da estrada,
diria que essas quatro rodas vão levar-te,
ao longo do pánico e da noite,
para outras paredes onde nenhum crucifixo redime a desolação das casas,
diria que se afastaram para sempre os dias antigos,
as suas laranjas,
a sua água,
uma cerejeira breve onde os melros cantavam.

Autor:José Agostinho Baptista
Foto:Kocham Krówki

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

a tua ausência é, cada momento, a tua ausência.


a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver e para não chorar.
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Autor José Luis Peixoto
In : A casa, A Escuridão
Foto:Szara Reneta

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Cais


Nunca parti deste cais e tenho o mundo na mão!
Para mim nunca é demais responder sim cinquenta vezes a cada não.
Por cada barco que me negou cinquenta partem por mim e o mar é plano e o céu azul sempre que vou!
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Autor:Manuel Lopes
Foto:Paulo César

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

e um dia ele pegou num lápis

e um dia ele pegou num lápis,
e desenhou.
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quando olhou o desenho nao sabia que o tinha desenhado.
assim a modos de riscos e rabiscos.
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ela olhou o desenho e disse:
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-Esta, sou eu!
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ele disse:
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-Quem és?
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ela nao respondeu.....
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Foto:Paulo Rebelo Lorient

terça-feira, 26 de agosto de 2008


Encontrei uma lágrima,
sozinha,
perdida.
Colhi-a e sorriu-me com todas as cores de um reflexo.
Agarrei em tintas e misturei-a em forma de flor.
Não lhe dei nome,
só lhe sinto a cor que me cobriu a dor…
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Autor : @ almaro — August 29, 2005
Foto:Kátia Chausheva

domingo, 24 de agosto de 2008

Tal como antigamente


Tal como antigamente
tal como agora
essa estrela
esse muro
esse lento
esse morto sorrir
nenhum acaso
nenhuma porta
impossível sair
.
Autor:Antonio Ramos Rosa
Foto:JP.Sousa

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

mergulho

na hora esquiva
das águas apurando
dias em ilhas alheias
ao sal me conservo
dentro dos ossos
experimentando
o nascimento de asas
translúcidas
e vôo
pássaro
o bico aponta
meu peito
e ronda meu corpo
mergulhado
em acasos
de sargaços e peixes
diáfanos
e eu
raramente em mim
concha adversa
me fecho
nessa mudez que pesca o verso
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Autor: Pavitra
Foto:Agnieska Motyka

terça-feira, 19 de agosto de 2008

mareantes na tua face de eremita


Sabemos que não há esquecimento que afogue o nosso beijo, tão distante e ansiado, que ainda não foi dado. Sabemos do livre e fácil emergir no mar dos nossos gestos, a remar até à praia do nosso contentamento. E também sabemos, que em ti, na luz do teu rosto, eu saberia ocultar-me de mim mesmo, estilhaçar grilhetas solitárias e sermos num abraço, suave como penas, dois corpos num só corpo no tempo quedo apenas. Mas espanta comigo o desalento, porque ambos sabemos que há mais ensejos que marés ou mareantes na tua face de eremita.

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Autor:NilsonBarcelli
30/agosto/2005
Foto:GaudimM

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

dos loucos



Sei dos dementes,
sei da rouquidão dos gritos,
sei do aflito rasgar-se
dos gemidos.
Amo.
É isso.
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Autor:Saramar

domingo, 17 de agosto de 2008

Elegia por antecipaçao à minha morte tranquila



Vem, morte, quando vieres.
Onde as leis são vis, ou tontas,
não és tu que me amedrontas.
Troquei por penas prazeres.
Troquei por confiança afrontas.
Tenho sempre as contas prontas.
Vem, morte, quando quiseres.
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Autor :Armindo Rodrigues
Foto:_-_Eau_-_

sábado, 16 de agosto de 2008

mocho cego


as palavras não me dizem. nada. já não! desfazem-se no(s) silêncio(s). caídas. sozinhas. no vazio das letras sem sentido(s). delas. os meus, já não se desenham. nelas. desenformam-se deformadas em nuvens-de-pó, de giz colorido nas-chuvas-de-estio, em vapores-de-solidão-desabraçada, nas noites de mocho-cego. macho. enfeitiçado. as palavras não me dizem. correm sem mim, no poema que não fiz. é dia de poetas. estou surdo. invento vazios.
cinzentos.
e
as palavras. aqui.
e
eu sem mim.

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Autor: almaro @
Foto:KuSiu

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

depois do



Depois
do cheiro doce dos cavalos
e depois
do sol beijar a sombra
das nogueiras
e depois
dos corpos se encontrarem
junto ao verão
depois disso não faz falta
mais nenhum lugar na mesa
nem nos olhos
dos pardais.
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Autor: Vasco Pontes
Foto:Kwandrans

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Poema sobre a recusa

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
nem na polpa dos meus dedos
se ter formado o afago
sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras
sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva.
.
Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado
minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda.
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Autor:Maria Teresa Horta
Foto:Paulo Madeira

quarta-feira, 13 de agosto de 2008



....Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam. Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria:...

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Autor :António Lobo Antunes
Foto:KarooI

terça-feira, 12 de agosto de 2008


um dia desenhei uma lágrima…

tinha as cores todas de uma semente…

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Autor: Almaro
Foto:Yousey

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Este foi o nosso último abraço.
E quando,daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje nãodaremos.
E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
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Autor:Maria do Rosário Pedreira
Foto:Kaunau

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Do Poema




O problema não é
meter o mundo no poema; alimentá-lo
de luz, planetas, vegetação. Nem
tão-pouco
enriquecê-lo, ornamentá-lo
com palavras delicadas, abertas
ao amor e à morte, ao sol, ao vício,
aos corpos nus dos amantes —

o problema é torná-lo habitável, indispensável
a quem seja mais pobre, a quem esteja
mais só
do que as palavras
acompanhadas
no poema.

Autor :Casimiro de Brito
Canto Adolescente, 1961
Foto:Paulo Rebelo Lorient


...Quarta-feira foi ontem e o encontro inesperado que tive consistiu em esbarrar com o meu ex-marido no metropolitano: deixou crescer o bigode, vinha acompanhado por uma mulata com metade da idade dele e nem sequer me viu. Ter-me-á visto alguma vez? Em todos os canais de televisão só passam novelas brasileiras....



Autor : António Lobo Antunes

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Soliloquio

Minhas mãos esfaceladas

pelas águas revoltas

libertam as impurezas

que num gesto infrutífero

tento desprender

para um esconderijo

distraído dessas marés

que chegam e abalam

que lambem a areia

como um réprobo

reza a sua última prece
.

Autor:© Piedade Araújo Sol

17/08/2005

Foto:Paulo César

Modelo:Paulo Madeira

terça-feira, 5 de agosto de 2008

já não sei

Já não sei da ternura nos teus lábios
A carícia das tuas mãos
O amor pleno nos teus olhos
Já não sei de mim
Ou de ti que foste embora
Já não sei
Dos dias calmos quando passeávamos de mãos dadas
Pelo entardecer do rio
O adormecer do sol quente
O vento meigo
Já não sei.

Autor:joão marinheiro 2007