quarta-feira, 30 de abril de 2008


Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece

antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens

direito a um subsídio de paz.Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te

importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas

de manhã cedo.Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o

direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa evidência me matar agora.E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:sabes que horas são?Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda

mais comprida, com a insónia, com as palavrasa despegarem-se dos pesadelos.


Autor:José Lúis Peixoto
Foto:Sordyl

sexta-feira, 18 de abril de 2008

podias estar aqui


podias estar aqui,
onde os meus lábios terminam
e começa o mar dos meus pedaços
.
podias estar aqui,
na janela onde debruço a alma,
em gestos do meu rosto, a recordar-te
.
podias estar aqui,
só no teu rosto vi a aurora,
como nunca vi em mais algum
.
autor:
antónio paiva
foto:ira bordo

quinta-feira, 17 de abril de 2008

cidades e rios

Fui falar sobre cidades e rios. Onde ambos se fundem, interpenetram e entrelaçam. Falei sobre cidades selvagens e rios domesticados.Terminada a aula (haja sapiência) percebi (assustado)que o homem é na certeza o maior equívoco da Natureza...
.
francisco artur da silva
16 Outubro 2005

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Quando o amor morrer


Ao Manuel Torre do Valle

Quando o amor morrer dentro de ti,
Caminha para o alto onde haja espaço,
E com o silêncio outrora pressentido
Molda em duas colunas os teus braços.
Relembra a confusão dos pensamentos,
E neles ateia o fogo adormecido
Que uma vez, sonho de amor, teu peito ferido
Espalhou generoso aos quatro ventos.
Aos que passarem dá-lhes o abrigo
E o nocturno calor que se debruça
Sobre as faces brilhantes de soluços.
E se ninguém vier, ergue o sudário
Que mil saudosas lágrimas velaram;
Desfralda na tua alma o inventário
Do templo onde a vida ora de bruços,
A Deus e aos sonhos que gelaram.

.
Ruy Cinatti

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Não fugir.Suster o peso da hora




Não fugir. Suster o peso da hora
Sem palavras minhas e sem os sonhos,
Fáceis, e sem as outras falsidades.
Numa espécie de morte mais terrível
Ser de mim despojado, ser
abandonado aos pés como um vestido.
Sem pressa atravessar a asfixia.
Não vergar. Suster o peso da hora
Até soltar sua canção intacta.


Autor:Cristovam Pavia
Foto:Kamyk75

domingo, 13 de abril de 2008

fingir que está tudo bem:


fingir que está tudo bem: o corpo rasgado e vestido
com roupa passada a ferro, rastos de chamas dentro
do corpo, gritos desesperados sob as conversas: fingirque está tudo bem: olhas-me e só tu sabes: na rua onde
os nossos olhares se encontram é noite: as pessoas
não imaginam: são tão ridículas as pessoas, tão
desprezíveis: as pessoas falam e não imaginam: nós
olhamo-nos: fingir que está tudo bem: o sangue a ferver
sob a pele igual aos dias antes de tudo, tempestades de
medo nos lábios a sorrir: será que vou morrer?, pergunto
dentro de mim: será que vou morrer?, olhas-me e só tu sabes:ferros em brasa, fogo, silêncio e chuva que não se pode dizer:amor e morte: fingir que está tudo bem: ter de sorrir: um
oceano que nos queima, um incêndio que nos afoga.
.
Autor:José Luis Peixoto

sexta-feira, 11 de abril de 2008



Importa que não haja ilusões sobre este ponto: é

que todos podemos morrer de sede em pleno mar.


Autor:João Miguel Fernandes Jorge
Foto:Black Tool

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Cavalgada


Já rebentei de correr
Sete cavalos a fio.
O primeiro era cinzento
Com sonhos de água sem fundo
E cor do norte o segundo
Com ferraduras de prata.
O terceiro era um mistério
E o quarto cor de agonia.
O quinto, de olhos em brasa,
Era só prata e espanto.
O sexto não se sabia
Se era cavalo, se vento.
Corria o sétimo tanto
Que nem a cor se lhe via.
Quanto mais ando mais meço
As distâncias que há em mim
Cada desejo é um fim
E cada fim um começo.

Autor:Armindo Rodrigues
In “Antologia Poética para a Infância e a Juventude


domingo, 6 de abril de 2008

Faz-me o favor....



Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
.
Tu és melhor -- muito melhor!
Do que tu.
Não digas nada.
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

.
Autor:Mário Cesariny
Foto:Anna Maria Jamroz

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Liberdade



Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.
.
Autor:Armindo Rodrigues
Foto:Luis Lobo Henriques