segunda-feira, 31 de março de 2008

Andanças do Corpo

Vi países de assassinos silenciosos
venderem a peso o ar que respiras
em tendas balançadas pelo vento
à sombra de armas contra passáros
sem asas nem plumas ---Vi países
fazerem a guerra como quem salva
o património de povos devastados
pelo sono usura da noite
que todos alguma vez acumulamos ---
vi máquinas objectivas dissecarem
a loucura sem margens o cristal rigoroso
de palavras novas de cidades fugazes
e tão sós (subsclares) e tão pobres
como ghettos bombardeados---vi países

Autor:Casimiro de Brito
In Negação da Morte

Foto:derianek

domingo, 30 de março de 2008

Hoje as Palavras...

Hoje, as palavras não têm som
São espaços vazios e
Letras.
.
Hoje as palavras são um só
Dia
Todo o dia
Num segundo tremido
Gasto sem tempo
Para viver
Contam-se apenas
Letras
.
Hoje as palavras não acordaram
Criaram buracos vazios
No peito
Emudeceram vozes
Nas gargantas
Todas as gargantas e
Dispersas
Em tudo ficaram letras
Pedaços de algo que fora
Despedaçado...
.
Autor : Ar, 11 de Setembro
Foto:Agnieszka Motyka

sábado, 29 de março de 2008

quando



quando o amor se diz nas letras, no olhar ,numa flor, e se grava assim intensamente em tatuagem da alma, não há verso nem maresia que acalme o mar que se dessalga na doçura da poesia…

Autor:Almaro

sexta-feira, 28 de março de 2008

Elegia


Nem os dias longos me separam da tua imagem. Abro-a no espelho de um céu monótono, ou deixo que a tarde a prolongue no tédio dos horizontes. O perfil cinzento da montanha, para norte, e a linha azul do mar, a sul, dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia quando, ao dizer o teu nome, a realidade do som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo o silêncio para que dele possas renascer, sombra, e dessa presença possa abstrair a tua memória.



Autor:Nuno Judice
Foto:Kamyk75

quinta-feira, 27 de março de 2008

diz-me o teu nome


Diz-me o teu nome - agora, que perdi
quase tudo, um nome pode ser o princípio
de alguma coisa.
.
Escreve-o na minha mão
com os teus dedos - como as poeiras se
escrevem, irrequietas, nos caminhos e os
lobos mancham o lençol da neve com os
sinais da sua fome. Sopra-mo no ouvido,
.
como a levares as palavras de um livro para
dentro de outro - assim conquista o vento
o tímpano das grutas e entra o bafo do verão
na casa fria. E, antes de partires, pousa-o
.
nos meus lábios devagar: é um poema
açucarado que se derrete na boca e arde
como a primeira menta da infância.
.
Ninguém esquece um corpo que teve
nos braços um segundo - um nome sim.
.


Autor:Maria do Rosário Pedreira
Foto:Sónia Fernandes Fragoso

Melodia


Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio, entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra a caminho do mar.


Autor:José Agostinho Baptista

terça-feira, 25 de março de 2008

com uma pedra

com uma pedra podemos fazer um universo, uma história ou um poema (as pedras servem para tudo, menos para atirar, as pedras são as letras do escultor…)“Engracei com uma pedra. Não pela cor, nem pela forma, mas por estar ali no meio do meu andar.Olhei-a, em conversa (daquelas conversas que temos com todas as coisas que nos entram no olhar e ali ficam a provocar-nos, seja pedra, rio, nuvem, quadro, flor ou coisas outras), mas ela mandou-me seguir caminho.O meu parar incomodava-a “ Sai! Sai da frente! Sai! Não ouves?” Repetiu-se em soluços simpáticos mas insistentes.Fiquei intrigado, porque não a imaginava com olhar. Pedra que é pedra, não tem frente nem costas quanto mais “olhar”.Fui. Na volta tornei a vê-la e parei-me provocador, mas não me disse nada.“Sonhei”, pensei “ lá estás tu com as tuas histórias”, disse-me. Fui com toda a intenção de ir, mas fui interrompido por um sussurro, “Espera! Fica aqui comigo! Preciso de ti!”. “Para quê? Porquê?”, “ Cansei-me de ser pedra! De manhã quando passaste por mim, estava a olhar para aquela papoila, aquela que ali está, a olhar para mim. Quero que me transformes em papoila!”, “Mas tu nunca serás uma papoila! Serás sempre uma pedra!”, “ Tu também já foste menino e agora és homem, porque razão não posso ser papoila?”Agarrei nela e esculpi-a, papoila…O sol encarregou-se de lhe dar cor…”
.
(escrito com a alma de uma pedra a 12/7/2004)
Autor:Almaro
.
Foto:Maria Isabel Batista olhares.com

segunda-feira, 24 de março de 2008

Poema à miragem




Este dia é apenas uma miragem
restos de sombras, sombra.
.
Dos seus beirais caiem fugidias ruas
em estilhaços sobre o lancil da luz,
pedaços de memórias, ruínas
de palavras nunca ditas.
.
Tudo é silêncio e névoa
nas grandes viagens transcendentais
ao coração matinal dos pássaros, à núbi
ciência abstracta dos insectos
.
Imagem que se desfaz em imagens
de pólen, circunscrito a um lugar
cada vez mais longínquo
.
que se ateia e logo morre
em nossas mãos.
inédito
13/09/2007
Foto:zdjecie








não disse nada, amor

Não disse nada nada, amor, não disse nada:
foi o rio que falou com a minha voz
a dizer que era noite e é madrugada
a dizer que eras tu e somos nós.

A dizer os mil rostos de Lisboa
ao longo do teu rosto se te beijo
À luz de um pombo chamo Madragoa
e Bairro Alto ao mar se te desejo.

Não disse nada, amor.Juro, calei-me:
foi uma voz que ao longe se perdeu
Cuidei que era Lisboa e enganei-me
pensei que éramos dois e sou só eu.



António Lobo Antunes
Letrinhas de Cantigas
Página 15




domingo, 23 de março de 2008

Fado Pensado

Do nosso fado
Pensado,
São os teus etéreos passos
A bailar
Nas minhas mãos
Que me transportam afincos.



Dos altos montes
Que subo
Sem temor ou desalento,
Aconchegando o teu corpo
Envolto em brisas
Sinceras,
Vejo a fresca
Verdade,
no caminho,
Na jornada,
Do nosso contentamento,
Amansando
De prazer
O calvário da saudade.



Não perco o sono,
Não sofro,
Porque do nosso destino
Já se finou a partida,
Só importa a caminhada.



Autor:NilsonBarcelli

Foto:Radostaw F.Lis.

sábado, 22 de março de 2008

vagueio

vagueio no mar sem barco, sou vela que voa gaivota, é ela o meu barco, os meus olhos do azul. vela branca, vagabunda…

Autor: Almaro
June 30, 2005
Foto:Hodur

sexta-feira, 21 de março de 2008


este livro. passa um dedo pela página, sente o papel
como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.
.
este livro tem palavras, esquece as palavras por
momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.
.
sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre
a tua. damos as mãos quando seguras este livro.
.
não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.
eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.
.
pousa os lábios sobre a página, pousa os lábios sobre
o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.
.
" José Luis Peixoto; "
in A casa, a Escuridão, pág 19.
Temas & Debates

quinta-feira, 20 de março de 2008

Os Figos



Colheram-se ontem
os figos doces dos seios
da mulher que se perdia
nas esquinas
das ruas abandonadas ao amor.

Provei-os.

Encontrei-a hoje pela manhã
desfazendo-se em beijos
no asfalto frio
ainda com a face
plena
de rubor.

José António Gonçalves
(in "Esquivas São as Aves", Col. Cadernos Ilha, nº. 11,
Ed. Correio da Madeira, 2001)
Foto:Rui Bonito

quarta-feira, 19 de março de 2008

beijo-te


Beijo-te
nas orlas
no epicentro
do teu abismo
até que te atires
sem álibis
toda nua
no precipício
dos meus braços .......
.
..
Autor:Nilson Barcelli
Foto:Amelka

dá-me um sorriso

“Dá-me um sorriso” ouvi em eco de longe, como quem pede “pinta-me um quadro, de azul, preciso de azul, do teu azul…”Fiquei com as palavras a saltitar-me no sentir, agarrei nas cores e nos lápis, coloquei-me frente ao espelho e desenhei-o. Primeiro a base, depois o esboço e finalmente as cores (poucas que o tempo é de crise).Houve momentos subtis no pintar, em que cheguei a fechar-me no olhar à procura do sentir. Foram esses momentos que salvaram a pintura.Quando (re) olhei , lá estava o sorriso…Discreto, é verdade, só não era azul…
.
.
Autor :ALMARO
.
Foto:Graça Loureiro

terça-feira, 18 de março de 2008

O esconderijo do homem triste

Não sei o que me aconteceu para ficar tão triste.

Lembro-me de ter percorrido meio mundo à procura de imagens. Tinham- me dito: é no movimento incessante de quem viaja que encontrarás a imobilidade que desejas.

Mas eu não sabia para onde ir. Deambulei anos a fio, e nunca encontrei as imagens que queria. Gastei as parcas forças que tinha neste trabalho, até que um dia me perdi junto ao mar.

Resolvi construir, ali mesmo, uma casa.

Tencionava não sair mais daquele lugar onde me perdera. Imobilizar- me, viver e envelhecer dentro de quatro paredes nuas erguidas pelas minhas mãos. Morrer frente ao mar, sozinho, como num romance que lera havia anos. Esperar que a casa se esboroasse e me servisse, por fim, de túmulo.

Assim não aconteceu. Algum tempo depois, a casa transformou-se subitamente em prisão. E talvez tenha sido isso que me pôs, assim, triste para sempre. Custava-me a crer que aquilo que eu próprio construíra acabasse de me atraiçoar.

Assustei-me e fugi nessa mesma noite. Ignoro o que se passou com a casa. Não sei se ainda existe... o que sei é que a meio daquela fuga deseperada ocorreu-me o que me levaria, enfim, a encontrar o esconderijo para a minha imobilidade.

É desse lugar iluminado que, hoje, vos falo.

Fui ter com um fotógrafo meu amigo e pedi-lhe para me retratar. Ele acendeu um foco de luz. Sentei-me no centro dele. A máquina disparou sem cessar.

Gesticulei, abri os braços, mexi-me muito - como se soubesse que nunca mais o voltaria a fazer.

Quando o meu amigo mergulhou o papel fotográfico no revelador, eu também mergulhei. Mas devo ter desmaiado uns segundos, talvez minutos, porque ao retomar consciência senti as pernas e os braços dormentes - e todo o meu corpo estava mole.

Um véu de luz toldou-me a visão. Ceguei por instantes, mas não foi uma sensação desagradável. Depois, o corpo começou a ondear, a impregnar-se no papel e a coincidir com o retrato que o meu amigo fizera de mim.

Segundos mais tarde uma pinça metálica tirava-me do revelador. Senti, então, a frescura da água - e toda a superfície da folha de papel, o meu novo corpo, brilhou. Em seguida deixei-me enteorpecer na temperatura tépida, voluptuosa, do fixador.

Tinha encontrado o esconderijo.

E aqui estou, diante de quem me visita e olha. Apesar de não ter deixado de ser um homem triste, adquiri a vantagem de estar sentado, e de já não precisar de fugir ou desejar seja o que for.

Mas o pior momento do dia é aquele em que nos separamos. Não consigo dormir. Fico noite fora com a minha solidão - e quem esteve a ver-me parte com o susto de continuar a existir.

Nenhum de nós é capaz de murmurar: fica comigo e toca-me. E a noite cai, de certeza, mais escura para quem parte.

Eu sou apenas a imagem do que fui. Não sinto nada.

Certa vez, um homem e uma mulher pararam diante de mim. Olharam-me muito tempo.

Aproximaram-se, afastaram-se, voltaram a aproximar-se do vidro que me protege. O nariz da mulher quase me tocou nos joelhos.

De repente, a mulher inclinou a cabeça, sobressaltou-se e disse:

- Zé, perdi o vidro do relógio.

O homem baixou-se e procurou-o. Quando o encontrou, deu-lho. Mas ela argumentou:

- A culpa foi tua. Eu não queria vir aqui.

O homem, muito sério, respondeu-lhe.

- Francamente, Fátima, não te toquei no pulso. Não mexi no tempo. Nunca mexo no tempo...

Outras vezes, quando não está ninguém olhar para mim, ponho-me a cismar:

A luz é o meu túmulo.

Em tempos, os meus gestos tiveram o rigor da abelha que rouba o pólen à flor. Com esses gestos quis construir um espaço para o silêncio. Uma morada onde fosse possível ignorar o mundo, ou esquecê- lo.

De vez em quando, aceito ainda o mistério das palavras que me cercam e não coincidem, em nada, com a realidade. Eu só quis celebrar a vida. Encontrar o esconderijo onde fosse possível um derradeiro acto de paixão. O esconderijo onde pudesse, de novo, tocar teu rosto e recusar a aridez da calúnia.

Mas a luz é o meu túmulo.

A pouco e pouco incendiaram-se os negros profundos, o círculo luminoso aprisionou-me, e as mãos gesticularam sem sentido. O interior das paisagens guardou a tua ausência. E numa última visão a madrugada irrompeu do mar adormecido.

As mãos abriram-se novamente, quando o dia começou a devorar a nudez do corpo.

Comovido, perdi a voz.

Não podia chamar-te, lembro-me, por isso desatei a escrever o teu nome nas paredes da cidade. Tempo perdido. Já não podias ouvir-me nem ler-me. Foi quando desejei, com ardor, este esconderijo.

Aqui, pelo menos, respiro ar condicionado, e um foco de luz simula a eternidade dos dias.

Hão há emoções, nem palavras ditas em voz alta. Não acontece nada, nem se ouve respiração alguma.

Quem me visita diz coisas fantásticas a meu respeito. Nunca confirmo nem desminto. Limito-me a ouvir e calo-me. Porque há coisas que devem correr com o tempo e, mais tarde ou mais cedo, nele se apagam.

É claro que também há coisas guardadas na mionha memória de papel. Mas essas, já não tenho a certeza de que alguém as tenha dito ou eu as tenha, de facto, ouvido.

Por vezes ponho-me a sorrir, mas ninguém consegue ver que sorrio, porque o retrato que me esconde - como eu - está morto e desfocado.

E a luz é o nosso túmulo.


Al Berto, O Esconderijo do Homem Triste, "VER", Círculo
de Leitores, Lisboa, Verão 1992, N' 19, pp. 74-75

(foto de Paulo César olhares com)

segunda-feira, 17 de março de 2008

quando choro

quando choro
todos os rios do mundo chovem no meu corpo
todos os amores represados desaguam no meu corpo
todos os amanheceres me anoitecem no olhar
.
por isso
aqui fico
navio soterrado na margem
.
assim
de braços calados.
sem lágrimas.


Jorge Casimiro in “murmurios ventos”,
Página 29

edição Jorge Casimiro e Pássaro de Fogo, 2006


Foto:Paulo César http://www.paulocesar.eu-paulo/ cesar

domingo, 16 de março de 2008

Noite encantada




Noite encantada, cobre-me com o teu manto,
Será que sabes que te amo loucamente?
Anseio o teu cheiro amargo a suor quente,
Onde me perco e encontro em teu encanto.
.
Quebro o tédio dos dias cinzentos em pedaços,
E enlouqueço por disfarçar toda a saudade
Da beleza negra que exibes com vaidade,
Enquanto descubro prazeres dos teus regaços.
.
Como é doce mergulhar nos teus braços,
Descobrir-me outro na tua imensa liberdade,
E desvendar cada pedaço da nova verdade,
Que trazes nas tuas formas, nos teus traços.
.
E pela manhã quando, saudoso, me levanto,
Ainda sinto nos lábios o teu sabor ardente,
Recordo ecos de versos do poema eloquente,
Que me segredaste ao ouvido para meu espanto.


Gonçalo Nuno Martins
Página 10
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papiro editora


sábado, 15 de março de 2008

tu não existes


Ele disse-lhe:
- Isto é um jogo!
Tu não existes!
Eu de te querer tanto é que te imagino.
Imagino-te tanto que te sinto quase real.
Mas não existes.
Eu é que insisto em que existas. Eu só!
-Isto é um jogo ouviste!

Ela não lhe respondeu…


João Marinheiro

sexta-feira, 14 de março de 2008

Fico admirado quando alguem



Fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.o amor é ter medo e querer morrer.




José Luis Peixoto

quinta-feira, 13 de março de 2008

Notas para o diário




deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,vivos e limpos.

a dor de todas as ruas vazias.

sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste silêncio.

e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo. sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas.

gosto do deserto, e do acaso da vida.

gosto dos enganos, da sorte e dos encontros inesperados.

pernoito quase sempre no lado sagrado do meu cora-

ção, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite.

basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer:

daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue.

chove torrencialmente.

o filme acabou.

não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.

fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais curto.

e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas.

e

nada escrevo.o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.

Autor:Al-Berto

Horto de Incêndio

Assírio & Alvim3ª edição - Dezembro 2000

quarta-feira, 12 de março de 2008

Vem



Vem…
Anda…
Não sei se é musica.
É chamamento, que percorre o corpo, e se prende nos passos.
Só eu vou,o resto fica.
Não sei o que fica, e se o que fica sente.
É flauta mágica que encanta e me chama.
Só a forma se esquece,quase estátua,sem vida.
Anda…
Vem…
Oiço mar,da praia para onde ia,e vou,não sei se na gaivota,se na onda,se no vento ou na brisa,apenas vou…

( escrito a 29-5-2004)
Autor:Almaro
Foto:Paulo Madeira