sábado, 20 de maio de 2017

Amor

Omar Ortiz


Cala-te, a luz arde entre os lábios,
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
essa perna é tua?, esse braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente á tua boca,
abre-se a alma à lingua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi facil, nunca,
também a terra morre.

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Já não vivo, só penso

Victor Bauer

Já não vivo, só penso. E o pensamento
é uma teia confusa, complicada,
uma renda subtil feita de nada:
de nuvens, de crepúsculos, de vento.

Tudo é silêncio. O arco-íris é cinzento,
e eu cada vez mais vaga, mais alheada.
Percorro o céu e a terra aqui sentada,
sem uma voz, um olhar, um movimento.

Terei morrido já sem o saber?
Seria bom mas não, não pode ser,
ainda me sinto presa por mil laços,

ainda sinto na pele o sol e a lua,
ouço a chuva cair na minha rua,
e a vida ainda me aperta nos seus braços.

Autor : Fernanda de Castro

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Lançamentos

Apresentação da obra por
Luís Filipe Sarmento e Isabel Mendes Ferreira


Na suavidade da pele a caligrafia
De todos os nomes letra a letra
Urdidura dos lábios no percurso da sede
E desmesuradas línguas
Notas de uma guitarra a arder na combustão dos corpos
E clandestinas grutas
Como chamas.

Desnascer do tempo
No encantamento dos olhos a derramarem-se
Por dentro na doçura do rosto
E no sinfónico movimento do voo
E na incandescência alada dos murmúrios
Assim libertos – grito sustenido
No âmago. A explodir desmedido
Qual poema líquido.

Poema Líquido, p. 30


Manuel Veiga Nasceu em, Matela, Vimioso (Trás-os-Montes), e vive em Bobadela, concelho de Loures. É licenciado em Direito tendo exercido advocacia alguns anos no início de carreira, que depois prosseguiu como consultor Jurídico em Municípios da Área Metropolitana de Lisboa e mais tarde como Inspector Superior da Inspecção Geral da Educação, onde desempenhou funções no respectivo Gabinete Jurídico. 
Entretanto, havia sido redactor de noticiários da Emissora Nacional e Copywriter de publicidade. Colaborou esporadicamente na imprensa diária, designadamente, no “Diário de Lisboa” e em “O Diário”, e regularmente em revistas periódicas sobre temas de natureza política, económica e social, designadamente, a revista “Economia EC”, a revista “Poder Local”, e a revista “SEARA NOVA”, integrando presentemente o Conselho Redactorial desta última. 
Para além da obra agora dado à estampa pela Poética, é também autor das obras “Poemas Cativos” (poesia, Poética Edições, 2014), “Notícias de Babilónia e outras Metáforas” (crónicas, Modocromia, 2015) e “Do esplendor das coisas possíveis” (poesia, Poética Edições, 2016).

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Venho de dentro, abriu-se a porta ...

Karen Hollingsworth

Venho de dentro, abriu-se a porta:
nem todas as horas do dia e da noite
me darão para olhar de nascente
a poente e pelo meio as ilhas.

Há um jogo de relâmpagos sobre o mundo
de só imaginá-la a luz fulmina-me,
na outra face ainda é sombra

Banhos de sol
nas primeiras areias da manhã
Mansidões na pele e do labirinto só
a convulsa circunvolução do corpo.

Autor : Luísa Neto Jorge
In A Lume - Poesia

terça-feira, 16 de maio de 2017

Chove

Emerico Toth

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.

Autor : José Gomes Ferreira

domingo, 14 de maio de 2017

casualidades

Oleg Oprisco

desviados da rotina,
submersos em cascatas de emoções acabadas
cruzaram-se, acidentalmente,

cruzaram-se numa esquina da vida,
quando fugiam de tudo e todos,
quando andavam por aí invisíveis,

olhares trocados,
sorrisos cúmplices,
e corpos partilhados,

e seguiram caminhos contraditos
fugiram, e a ausência
macerou a saudade compartilhada,

aos poucos, e levemente
criou uma auréola num acaso que
merece sempre ser revivido.

Autor : BeatriceM

sábado, 13 de maio de 2017

Os amigos


norvz austria

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

Autor : José Tolentino Mendonça
In : De Igual Para Igual

sexta-feira, 12 de maio de 2017

As tuas mãos

omar ortiz
Pálido, extático,
olhavas para mim.
E as tuas mãos raras,
de linhas estilizadas,
poisavam abandonadas
sobre os tons liriais do meu coxim…

Os meus olhos de sonho
ficaram presos tristemente
às tuas mãos!...
- Mãos de doente,
mãos de asceta…
E eu que amo e quero a rubra cor dos sãos,
tombei-me a contemplá-las
numa atitude cismadora e quieta…

Depois aqueles beijos que lhe dei,
unindo-as, ansiosa, à minha boca
torturada e aflita,
tiveram a amargura
suavemente doce
duma dor bendita!

Mãos de renúncia! Mãos de amargor!
… E as tuas lindas mãos, nostálgicas e frias,
tristes cadáveres
de ilusão e dor,
não puderam entender
a febre exaltada
e torturante
que abrasava
as minhas mãos
delicadas,
- as minhas mãos de mulher!

Autor : Judith Teixeira
in 'Antologia Poética'

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Conheço o Sal


Kevin Pinardy

Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.

Autor : Jorge de Sena

quarta-feira, 10 de maio de 2017

As Mães

Gustav Klimt

as mães fazem remendos bonitos
em almas rasgadas
com linhas que arrancam do peito

as mães sangram sem que se veja
colocam as mãos nos seus colos já vazios
e esperam que regresse um sorriso que as cure

as mães alimentam-se de pequenas palavras
{que quase nunca dizemos}
e de abraços
{que quase nunca damos}

as mães iludem a fome
{que poucas vezes matamos}
lembrando as canções de embalar
que já não ouvimos

as mães são presente
passado e futuro sempre presentes
até ao último suspiro
curam sempre sempre sempre
mais do que podem

e quando estendem os braços
as mães são a casa
de onde nunca partimos

as mães são eternas
{também morrem as mães?}
e amamos as mães e a sua magia
sem nunca haver tempo para lho dizermos...

Autor : Sónia M
http://soniagmicaelo.blogspot.pt/