quinta-feira, 23 de março de 2017

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Fosse o rio
abraçaria o mar.
Fosse mar
abraçaria o ar.
Fosse ar
abraçaria o fogo.
Seria então
todo.

Autor : Fernando Paixão
In De Fogo dos Rios (1989)

quarta-feira, 22 de março de 2017

Título por haver

Anka Zhuravleva

No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso

Autor : Ana Luísa Amaral

terça-feira, 21 de março de 2017

Pai




ionut caras

Pai. A tarde dissolve-se sobre a terra, sobre a nossa casa. O céu desfia um sopro quieto nos rostos. Acende-se a lua. Translúcida, adormece um sono cálido nos olhares. Anoitece devagar. Dizia nunca esquecerei, e lembro-me. Anoitecia devagar e, a esta hora, nesta altura do ano, desenrolavas a mangueira com todos os preceitos e, seguindo regras certas, regavas as árvores e as flores do quintal; e tudo isso me ensinavas, tudo isso me explicavas. Anda cá ver, rapaz. E mostravas-me. Pai. Deixaste-te ficar em tudo. Sobrepostos na mágoa indiferente deste mundo que finge continuar, os teus movimentos, o eclipse dos teus gestos. E tudo isto é agora pouco para te conter. Agora, és o rio e as margens e a nascente; és o dia, e a tarde dentro do dia, e o sol dentro da tarde; és o mundo todo por seres a sua pele. Pai. Nunca envelheceste, e eu queria ver-te velho, velhinho aqui no nosso quintal, a regar as árvores, a regar as flores. Sinto tanta falta das tuas palavras. Orienta-te, rapaz. Sim. Eu oriento-me, pai. E fico. Estou. O entardecer, em vagas de luz, espraia-se na terra que te acolheu e conserva. Chora chove brilho alvura sobre mim. E oiço o eco da tua voz, da tua voz que nunca mais poderei ouvir. A tua voz calada para sempre. E, como se adormecesses, vejo-te fechar as pálpebras sobre os olhos que nunca mais abrirás. Os teus olhos fechados para sempre. E, de uma vez, deixas de respirar. Para sempre. Para nunca mais. Pai. Tudo o que te sobreviveu me agride. Pai. Nunca esquecerei. 

Autor : José Luís Peixoto 
in 'Morreste-me' página 13/14

domingo, 19 de março de 2017

Pai

Mikael Aldo

A chuva parou, e a lágrima já não cai.
Secou, quando tive a certeza
que a tua partida inevitável
fazia parte do mistério da vida
ou, se calhar da morte.

Sim, é mais assertiva.

Comigo transporto o teu nome,
ou parte dele.

E é uma bênção.

Autor : BeatriceM 2017-03-19

sábado, 18 de março de 2017

O pequeno sismo

mikael aldo

Há um pequeno sismo em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.

Elevas-me à altura da tua boca
lentamente
para não me desfolhares.
Tremo como se tivera
quinze anos e toda a terra
fosse leve.
Ó indizível primavera!

Autor : Eugénio de Andrade

sexta-feira, 17 de março de 2017

De mim para mim com amor

Jantina Peperkamp

Desatei o laço
do ramo de rosas
que comprei
na florista
para mim
Abracei-as desatadas
soltas
rosas da cor do sol, do sangue, do fogo
resplandecentes
húmidas do orvalho
cúmplice
que a florista quis que tivessem
E rocei os lábios pelas pétalas
deleitada
evocando o prazer que terias
se fosses tu a dar-mas.

Autor:Ângela Leite
in Metáforas Sobre o Amor

quinta-feira, 16 de março de 2017

De novo a montanha

Diggie Vitt

De novo a montanha e um silêncio íntimo
Em que percorro veredas d´água. E o magma
E nesse fogo se condensam estalactites. Afectos agora
Evanescentes. Essências matriciais ainda.

Fecha-se o círculo. Em redor as brumas
E os rostos. E os cheiros. E esta pedra
Em que trôpego desfaleço. A febre quente.
E o suor frio. E o grito d´alma que voa
Qual corrente. Veleiro sem regresso
Nem destino certo...

A vida? Esquivas corsas que de tão lestas
Se pressentem e apenas no rasto se iluminam.
Fortuitas são as horas. Não o caçador negro
Nem o coração da pedra. Apenas a água
(E sal da lágrima) são lírios e são heras.

Guardo sôfrego este silêncio e me retiro.
O fogo é agora esta paixão de nada: o eco de calcário
E meus dedos brasa. Poeira e caliça.

E muros derrubados.
E esta centelha viva que na queda
Se derrama.

Fim de tarde
Que no declinar do sol
Se incendeia.

Autor : Manuel Veiga
 "Do Esplendor das Coisas Possíveis" - Poética Edições
Lisboa Abril  2016

quarta-feira, 15 de março de 2017

Um outro tanto

Metin Demiralay

Não sei como consigo
amar-te tanto
se querer-te assim na minha fantasia
é amar-te em mim
e não saber já quando
de querer-te mais eu vou morrer um dia
perseguir a paixão até ao fim é pouco
exijo tudo até perder-me
enquanto, e de um jeito tal que desconhecia
poder amar-te ainda
um outro tanto

Autor : Maria Teresa Horta

terça-feira, 14 de março de 2017

Apenas areia



Thomas Eakins

Sou o pó
E vou no vento
Através de rios
E montes
Vou no vento
E talvez eu pouse
Talvez encontre
O mel as areias
Do teu corpo
Trazidas pelo vento

Autor : António Ramos Rosa

domingo, 12 de março de 2017

Adeus



Despi-me do orgulho e de todos os subterfúgios
Que ainda sobreviviam em mim
Embora – desnuda
Afaguei palavras
Que te ofereci na limpidez
De um verbo –- apenas.


Era tarde
Disseste-me
E eu novamente parti
.
Autor : BeatriceM 16/09/2012
(reeditado)